sexta-feira, 12 de junho de 2020

¿Quem são essas sapatonas?

Somos 2 mulheres, falando de um mesmo celular. Temos realidades  distintas, mais nem tanto. Eu, Kuarahy sou Guarani e lésbica, não precisa detalhes para comprender o que significa ser indígena numa sociedad compulsivamente "euro-descendiente",né?! 
Eu Meli, sou filha de vó, uma mulher Puri, que migrava por trilhas da Costa verde até o Vale do Paraíba. 
Ambas somos sobreviventes de pedófilia e uma sobrevivente de estupro. Nascidas de ventres também estuprados como todas as pessoas nascidas no meio dessa mestiçagem imposta.

Diante das práticas heterossexuais obrigatórias, que se sustentam em posições políticas que causam a marginalização de lésbicas dentro do próprio movimento feminista, entendemos como a heterossexualidade não é só sobre sexo, é sobre uma estrutura rígida que não nos escuta e nos prefere invisíveis em todos os espaços.
Somos lesbofeministas, porque sabemos que isso é um golpe letal na estrutura que pretende uma dominação perpétua que começa sobre nossos corpos. 

Aprendemos com nossas avós que migrar é ancestral, e uma trilha de sobrevivência, é como nós guaranis sobrevivemos apesar do genocídio,  sem terra, e sem comunidades fixas e eternas, vamos criando lugares onde viver (nosso aty) , pois também termos "familiares" que não nos aceitam por muito tempo, 
é mais que  o discurso , 
é a prática 
que junto a nossas irmãs também descolonizadoras da Abya Yala estamos construindo com a memória e o resgate histórico, o feminismo comunitário que hoje algumas lêem e falam se basea  nisso, nas histórias de resistência e é o nosso básico "conteúdo" que hoje a gritos estamos tentando compartilhar. 
Temos uma página no face "Mãos de manas" , pra quem quiser conhecer, registramos ali as vivências nessa caminhada, os trabalhos que realizamos pra sobrevivermos, nesse desapego urgente do capitalismo como "centro de nossa vida", a prática nos fortalece e a arte é o que nos cura . 

Junto a mulheres e crianças, conseguimos crear desde a educação popular uma troca sem portar diplomas e sem reconhecimento acadêmico, reforços de leitura e escritura, teatro, música, pintura; construimos,  capinamos, semeamos e sempre, sempre cozinhamos e somos babás na responsabilidade da maternidade por fora do ato de conceber, responsabilidade social que nos desafia cada dia.

Não faltam homens  que se sentem "ameaçados" e  causam propositalmente rupturas em TODOS os lugares que compartilhamos e tristemente mulheres que os apoiam.

Algumas aqui sabem um pouco de  nossas histórias, porque quando sentíamos medo,eu Meli, logo vinha contar para alguém, sei lá pra que... só pra ter registrado talvez... 

Nossa luta é desde a consciência pra fora e tentando não desaparecer por consequência do apagamento que sofremos constantemente, nas práticas que nos excluem pra falar de nós depois só em terceiras pessoas, ausentando-nos, por que é melhor e menos "pesado" do que escutar as nossas  teorias genuínas baseadas em práticas de vida com  nossa própria "voz" ou "letra".

Aprendemos  a não colocar as poucas energias que sobram, depois de mulear todos os dias em serviços gerais, para ensinar homens adultos ou sendo pedagógas na desconstrução da heterossexualidade de pessoas que não precisam sair do conforto.

Nosso aporte é visívelmente esse, nossa vivência como teses doutoral, numa academia descentralizada das elites intelectuales e artísticas, resistirmos na busca por abrir outras alternativas diante dos modelos estabelecidos, não só sonhamos uma sociedade com outras lógicas desde o ego intelectual, estamos abrindo caminhos na mão mesmo, porque não temos opção, precisamos mantermos vivas.  Já nascemos separadas, não temos opção de não sermos separatistas e é desde este espaço, nossos corpos e suas condutas, que queremos destruir as bases de cimento e plantar raizes vivas, nosso legado medicinal,
e recriar nossas vidas, nossos tekoha como Avakatuete dessa terra que se move embaixo dos nossos pés. 




Queremos lesbianizarte a palavra.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Memórias de la inmigranta I

Más atrás por favor,
allá donde la memoria vieja 
llueve en quietud sepulcral,
donde el aire remolina olor a leña, yuyal y pobreza, allá justo donde el apagamiento, después de la vergüenza se incrustó y se convirtió en piel sobre la piel, reniego de la enblanquecida.

Más atrás, bajo los cimientos de la ciudad construida, húmeda de lágrimas, sólida de huesos, pérdidas sin regreso.

Soñar un poco aveces es mi respuesta, respirar en el intento de reinventar el cuento.

Y todavía, lucidamente, allá, bien allá, escucho temblorosa la voz de la abuela martirizada, cincelada,  evangelizada, insistente: 
-"Tenes que salir de acá, ser más estudiada''
Y mientras, yo, más acá, 
corriendo atrás,
aprendiendo a limpiar mejores casas, lavar mayores ventanas para pagar la cuota, la comida y el derecho a una almohada.
No cambió nada, aunque me eche más polvo blanco en la cara yo sigo siendo la nieta y la cara de quien un día intentando esconderse creyó convertirse en blanca, y cuando bajó la guardia, ¡Zas! ¡blanco de caza!